O primeiro a digitalizar é o que hoje faz você perder dinheiro sem perceber: o custo das receitas e o registro das compras. Depois vêm as vendas por produto e os recebimentos. Pedidos, estoque e o resto chegam quando isso já funciona. Uma ferramenta vale a pena se economiza mais tempo ou dinheiro do que custa, e só se você for usar toda semana.
Os tipos de ferramenta que existem
Você não precisa de todas. A lista serve para você saber o que cada tipo faz e escolher pelo que está faltando.
- Custo e receitas. Calculam o custo carregado de cada produto a partir da receita e do preço dos ingredientes, e avisam quando um preço muda. Pode ser uma planilha ou um app de custos como o Rindero. No guia de planilha ou app para calcular custos está a comparação com números.
- Registro de compras. Desde uma pasta de fotos de cupons até apps que leem a nota e guardam item, quantidade e preço. Servem para saber quanto você pagou por cada ingrediente e quando subiu.
- Vendas e caixa. Um registro do que você vendeu, quanto e por qual canal. Planilha, caderno passado a limpo no fim do dia ou sistema de frente de caixa.
- Recebimentos. Pagamento instantâneo, links de pagamento, QR code e maquininha de cartão. Cada um tem seu custo: alguns são gratuitos, outros cobram taxa por venda ou mensalidade.
- Pedidos e mensagens. Catálogos em apps de mensagem, formulários de pedido e apps de delivery. Organizam os pedidos, mas alguns cobram comissão em cada um.
- Estoque e produção. Listas de estoque e planejadores de produção. Úteis quando você tem vários produtos que usam os mesmos ingredientes.
- Notas e contabilidade. Sistemas para emitir nota e organizar a parte fiscal. O que você precisa depende do enquadramento: veja o guia de licenças e registro e confirme com um contador.
- Fichas técnicas e controle de qualidade. Receitas padronizadas com pesos, passos e fotos que qualquer pessoa na cozinha consegue seguir. No guia de como padronizar seu produto você vê o que colocar nelas.
- Agenda e lembretes. Para renovações, contas e validade do que está em estoque.
O que digitalizar primeiro
A ordem depende de onde você perde mais dinheiro sem ver. Para quase todo negócio pequeno de comida é esta:
- Custos e receitas. Se você não sabe quanto custa cada produto, todo o resto se apoia num número inventado.
- Compras. Sem o preço real de cada ingrediente, o custo da receita fica velho em semanas.
- Vendas por produto. Mostra qual produto deixa mais dinheiro, que nem sempre é o que mais vende.
- Recebimentos. Conferir o que entrou por cada meio de pagamento sem somar na mão.
- Pedidos. Quando o volume de mensagens já não deixa você cozinhar.
- O resto, quando o anterior funciona sozinho.
Se você digitaliza o passo 5 antes do 1, vai receber mais pedidos de produtos que talvez estejam dando prejuízo.
Como saber se uma ferramenta vale o que custa
Há dois tipos de custo: mensalidade fixa ou taxa por venda. Cada um se avalia de um jeito.
Mensalidade fixa: compare o que você paga com o tempo que ela economiza e os erros que evita.
economia por mês = horas economizadas × valor da sua hora + perdas evitadas − mensalidade
Para o valor da sua hora, use quanto pagaria a alguém para fazer esse trabalho, ou quanto quer ganhar por hora. O guia de custo da mão de obra ajuda a chegar nesse número.
Taxa por venda: se os clientes que usam esse meio comprariam de qualquer jeito, a taxa é só custo. Ela só se paga com vendas novas.
vendas novas necessárias = taxa do mês ÷ margem de contribuição (%)
Exemplo: um app de custos e uma maquininha
Você vende marmitas, brigadeiros e bolo de pote, seis produtos no total. Todo mês recalcula os custos na mão e leva 3 horas. Você valoriza sua hora em R$ 25,00.
O app de custos. Suponha uma mensalidade de R$ 30,00 (valor de exemplo). Com ele, recalcular leva 1 hora.
- Horas economizadas: 3 − 1 = 2 horas
- Valor da economia: 2 × R$ 25,00 = R$ 50,00
- Resultado: 50 − 30 = R$ 20,00 por mês a favor
Basta economizar 30 ÷ 25 = 1,2 hora por mês para cobrir. E se ele mostrar a alta da carne um mês antes, poupando R$ 150,00 de margem perdida, o mês fica em 50 + 150 − 30 = R$ 170,00.
A maquininha. Digamos que cobre 3,5% por venda (taxa de exemplo; confira a do seu contrato). No mês, você vendeu R$ 2.000,00 no cartão.
- Taxa: 2.000 × 0,035 = R$ 70,00
Se todos esses clientes pagariam de outro jeito, você perdeu R$ 70,00. Se alguns só compraram porque você aceita cartão, veja quantas vendas novas são necessárias. Com margem de contribuição de 40%:
- Vendas novas necessárias: 70 ÷ 0,40 = R$ 175,00 por mês
- Em marmitas de R$ 22,00: 175 ÷ 22 = 7,95, ou seja, 8 marmitas por mês que você não venderia sem cartão
Se na feira ou em pedidos de empresa você perde mais de 8 vendas por mês por não aceitar cartão, compensa. Se seus clientes são do bairro e pagam na hora de outro jeito, provavelmente não.
Erros que saem caros
- Pagar várias ferramentas que não conversam. Se você copia os mesmos dados em três lugares, acaba não atualizando nenhum.
- Digitalizar a bagunça. Se hoje você não anota as compras num caderno, um app não vai fazer isso por você. Primeiro o hábito, depois a ferramenta. A rotina semanal do negócio é um bom lugar para começar.
- Não conseguir tirar seus dados. Antes de começar, confirme que dá para exportar receitas e vendas para um arquivo.
- Testar tudo de uma vez. Uma ferramenta nova por mês, e só quando a anterior já virou costume.
No guia de operação do negócio você vê como essas ferramentas se encaixam com estoque, segurança dos alimentos e registros.
Faça na calculadora
Antes de pagar qualquer coisa, teste a calculadora de custos com um dos seus produtos: coloque a receita, os preços do último cupom e o seu preço de venda, e veja se o custo carregado bate com o que você tinha na cabeça.
Perguntas frequentes
Preciso de um app ou uma planilha resolve?
Para começar, uma planilha bem montada resolve. Um app vale a pena quando você tem vários produtos, os preços mudam toda hora ou você não quer manter fórmulas. O importante é usar toda semana.
O que acontece com meus dados se eu parar de pagar uma ferramenta?
Antes de começar com qualquer uma, veja se dá para exportar os dados num arquivo que abra sem ela. Se não der, suas receitas e vendas ficam presas lá dentro.
Aceitar cartão faz vender mais?
Depende dos seus clientes. Se quem paga no cartão pagaria de outro jeito, a taxa é só custo. Vale a pena se traz vendas que você perderia e a margem dessas vendas cobre a taxa.
Preciso de sistema para emitir nota fiscal?
Depende do seu enquadramento. Se você é MEI, confira as obrigações atuais no Portal do Empreendedor (gov.br); em outros casos, fale com um contador.