Antes de pegar um empréstimo para o seu negócio de comida, descubra quanto dinheiro cai de fato na sua conta, quanto você paga no total e qual é a parcela de cada mês. Depois compare esses números com a sua margem: o que você comprar com o empréstimo precisa gerar mais contribuição por mês do que a parcela, com folga caso venda menos do que imagina. Se a conta só fecha quando tudo dá certo, o empréstimo é grande ou caro demais para você.
As perguntas antes de assinar
Peça as respostas por escrito, em reais:
- Quanto cai na minha conta? Se descontam tarifas na liberação, você recebe menos do que pediu.
- Qual é a parcela e quantas são? Pergunte se a parcela é fixa ou pode mudar.
- Quanto pago no total? Parcela × número de parcelas, mais qualquer outra cobrança.
- Qual é o custo total anual, com tarifas e seguros? A taxa de juros sozinha não conta tudo. Peça o custo efetivo total para comparar uma oferta com a outra.
- O que acontece se eu atrasar? Multa, juros de mora, efeito no seu cadastro de crédito.
- Posso antecipar parcelas sem multa? Se as coisas forem bem, você vai querer quitar antes.
- Que garantia vocês pedem? Se for a sua casa, o seu salário ou o aval de um parente, o risco não é mais só do negócio.
Confira também no Banco Central se a instituição é autorizada a funcionar. Se algo não ficar claro, pergunte até alguém explicar com números.
O custo do dinheiro, em reais
O custo real de um empréstimo é o que você paga no total menos o que recebeu. É esse o número que você compara com a sua margem.
custo do empréstimo = total pago − valor recebido
Se você recebe R$ 5.850,00 e paga R$ 7.080,00, o dinheiro custou R$ 1.230,00. Em outras palavras, você devolve cerca de R$ 1,21 para cada real que recebeu.
Compare o custo com a sua margem
O empréstimo é pago com margem de contribuição, e não com faturamento. Se um produto deixa R$ 12,00 por unidade, cada R$ 12,00 de custo do empréstimo é uma unidade que você vende para o banco. São duas contas:
- Unidades para pagar a parcela: (parcela + custos extras do mês) ÷ contribuição por unidade. É quanto você precisa vender a mais todo mês só para cobrir o empréstimo.
- Unidades que o custo do dinheiro leva: custo total do empréstimo ÷ contribuição por unidade. É quanto do seu trabalho extra vira juros e tarifas.
Depois, faça o teste de estresse: veja o que acontece se você vender 80% do que espera. Se ainda assim paga a parcela, o empréstimo é administrável. Se não, você vai completar com dinheiro de outro lugar justamente nos meses ruins.
Exemplo: fogão e freezer para mais marmitas
Você vende marmitas congeladas a R$ 22,00. O custo variável (ingredientes, pote, etiqueta) é R$ 10,00, então cada marmita deixa R$ 12,00. A produção chegou no limite e você quer um fogão industrial e um segundo freezer. Uma instituição oferece R$ 6.000,00 com tarifa de R$ 150,00 descontada na liberação.
Opção A: 12 parcelas de R$ 590,00
- Você recebe: 6.000 − 150 = R$ 5.850,00.
- Paga no total: 12 × 590 = R$ 7.080,00.
- Custo do empréstimo: 7.080 − 5.850 = R$ 1.230,00, ou 1.230 ÷ 5.850 = 21,0% do que você recebeu.
Opção B: 24 parcelas de R$ 330,00
- Paga no total: 24 × 330 = R$ 7.920,00.
- Custo do empréstimo: 7.920 − 5.850 = R$ 2.070,00, ou 2.070 ÷ 5.850 = 35,4% do que você recebeu.
O que o equipamento traz. Você espera vender 80 marmitas a mais por mês. O fogão e o freezer somam R$ 90,00 por mês de gás e energia.
| Opção A (12 parcelas) | Opção B (24 parcelas) | |
|---|---|---|
| Contribuição extra: 80 × 12 | R$ 960,00 | R$ 960,00 |
| Menos gás e energia extra | − R$ 90,00 | − R$ 90,00 |
| Menos parcela | − R$ 590,00 | − R$ 330,00 |
| Sobra por mês | R$ 280,00 | R$ 540,00 |
| Marmitas extras para pagar a parcela | (590 + 90) ÷ 12 = 56,7, ou seja, 57 | (330 + 90) ÷ 12 = 35 |
| Marmitas que o custo do dinheiro leva | 1.230 ÷ 12 = 102,5, ou seja, 103 | 2.070 ÷ 12 = 172,5, ou seja, 173 |
Teste de estresse na opção A. Vendendo só 80% do previsto, são 64 marmitas a mais: 64 × 12 = R$ 768,00, menos 90, menos 590 = R$ 88,00 por mês. Ainda dá para pagar, mas quase sem folga.
A leitura. A opção B deixa mais dinheiro por mês e aguenta melhor um mês fraco, mas o dinheiro custa 70 marmitas a mais (173 − 103). A opção A é mais barata, mas exige vender pelo menos 57 marmitas extras todo mês durante um ano. Se você já tem pedidos que ocupam o equipamento novo, a A faz sentido. Se as vendas extras são uma esperança, nenhuma das duas é boa ideia ainda: tente primeiro vender mais com o que você já tem, com um turno a mais de produção.
Empréstimo para estoque e capital de giro
Um empréstimo curto para comprar ingredientes, por exemplo para uma encomenda grande de empresa, segue a mesma lógica em prazo menor. Suponha que você pegue R$ 2.000,00 por dois meses e isso custe R$ 120,00 no total. Se os ingredientes são 40% do seu preço, esses R$ 2.000,00 viram 2.000 ÷ 0,40 = R$ 5.000,00 em vendas. Tirando os ingredientes e R$ 600,00 de embalagens, a contribuição é 5.000 − 2.000 − 600 = R$ 2.400,00. O custo do dinheiro é 120 ÷ 2.400 = 5% dessa contribuição: razoável.
O risco aqui é o prazo. Se a empresa paga em 60 dias e a primeira parcela vence em 30, você vai pagar com um dinheiro que ainda não tem. Antes de pedir, veja quantos dias passam entre comprar e receber; o guia de capital de giro mostra como calcular esse ciclo, e o de como o estoque prende o seu caixa mostra como liberar dinheiro sem pegar empréstimo.
Quando faz sentido e quando não faz
Faz sentido quando o que você compra aumenta a capacidade de um produto que já vende e deixa boa margem, ou quando financia uma encomenda confirmada que será paga antes da parcela.
Não faz sentido para cobrir prejuízo de um produto que não se paga, para pagar custos fixos do mês ou para comprar estoque em quantidade só porque está barato no atacarejo. Nesses casos o empréstimo aumenta o problema que você já tem.
Antes de qualquer empréstimo, tenha claro como o dinheiro entra e sai do seu negócio toda semana. O guia de fluxo de caixa para negócios de comida ajuda a ver se a parcela cabe.
Faça na calculadora
Coloque o seu produto na calculadora de custos para ter a margem de contribuição exata por unidade. Com esse número você faz as duas contas deste guia: quantas unidades pagam a parcela e quantas o custo do dinheiro leva.
Perguntas frequentes
Qual é uma boa taxa de juros para empréstimo de pequeno negócio?
Aquela em que o custo total, com juros, tarifas e seguros, pode ser pago com a contribuição extra que o empréstimo gera. Compare ofertas pelo custo total em reais e pela parcela, e não só pela taxa anunciada.
Vale a pena parcelar em mais vezes para a parcela ficar menor?
A parcela menor alivia o caixa de cada mês, mas quase sempre você paga mais no total. Escolha o prazo mais curto cuja parcela você consiga pagar mesmo vendendo menos do que espera.
Posso pegar empréstimo para cobrir prejuízo?
Pode, mas só compra tempo. Se um produto não cobre os próprios custos, o empréstimo aumenta o buraco. Primeiro acerte o preço, o custo ou o canal.
Empréstimo de parente também tem custo?
Mesmo sem juros, tem parcela e prazo. Faça a mesma conta, coloque no papel e trate como qualquer outra dívida do negócio.