Toda ida às compras tem um custo que não aparece no cupom: o Uber, a gasolina ou a passagem e as horas que você gasta indo, comprando e voltando. Para saber quanto é, some o transporte de ida e volta com as suas horas multiplicadas pelo seu valor por hora, e divida pelo que comprou ou pelas unidades que vai produzir com essa compra. Num negócio pequeno esse valor pode pesar bastante sobre o gasto com ingredientes, e pode fazer o atacarejo barato sair mais caro que o mercado da esquina.
O que entra no custo de uma ida
Uma ida às compras tem duas partes:
- Transporte: Uber, gasolina, estacionamento, ônibus. Sempre ida e volta, e com carga, que às vezes obriga a voltar de carro mesmo tendo ido de ônibus.
- Tempo: de quando você sai de casa até guardar a última sacola. Inclui a fila do caixa, a procura pela marca certa de leite condensado e a arrumação na volta.
O tempo é a parte que quase todo mundo esquece. Se três horas do seu sábado vão para a ida à Ceasa ou ao Assaí, são três horas que você não passou cozinhando nem vendendo. Dê a elas o mesmo valor que você usa para custear o seu próprio trabalho. Se não der, você está trabalhando de graça nessas horas, e o preço dos seus produtos nunca vai devolver esse tempo.
Custo da ida = transporte de ida e volta + (horas da ida × seu valor por hora)
Como dividir esse custo
Existem duas formas. Escolha uma e use sempre a mesma.
Como acréscimo sobre o que você comprou. Divida o custo da ida pelo total da compra. Se a ida custa R$ 93,00 e você comprou R$ 500,00, o acréscimo é 93 ÷ 500 = 18,6%. Cada real de ingrediente dessa compra custou, na prática, R$ 1,19. É a melhor forma de comparar lugares.
Como custo por unidade produzida. Some todas as idas do mês e divida pelas unidades produzidas. Quatro idas de R$ 93,00 e 400 marmitas no mês dão R$ 372,00 ÷ 400 = R$ 0,93 por marmita. É essa versão que entra no seu custo carregado e no preço.
O que não dá é ignorar porque "eu ia sair de qualquer jeito". Se a ida existe por causa do negócio, é um custo do negócio.
Exemplo: marmitas com compras no atacarejo
Você faz 100 marmitas por semana. Todo sábado vai ao atacarejo.
- Uber ida e volta: R$ 48,00
- Tempo: 3 horas a R$ 15,00 por hora = R$ 45,00
- Custo da ida: R$ 48,00 + R$ 45,00 = R$ 93,00
- Compra semanal: R$ 500,00 (R$ 320,00 de secos como arroz, feijão, óleo, temperos e embalagens, e R$ 180,00 de frescos como frango, legumes e ovos)
Acréscimo: 93 ÷ 500 = 18,6%. Por marmita: 93 ÷ 100 = R$ 0,93. Se a sua marmita tem custo carregado de R$ 11,50 sem contar a ida e você vende por R$ 18,00, a ida tira R$ 0,93 dos R$ 6,50 que você achava que ganhava em cada uma.
Agora compare três jeitos de comprar a mesma coisa. No mercado do bairro os mesmos itens custam em média 18% a mais, mas você vai a pé e leva uma hora (R$ 15,00).
| Opção | Conta para duas semanas | Total |
|---|---|---|
| A. Atacarejo toda semana | 2 × (500 + 93) | R$ 1.186,00 |
| B. Mercado do bairro toda semana | 2 × (500 × 1,18 + 15) = 2 × (590 + 15) | R$ 1.210,00 |
| C. Atacarejo a cada duas semanas para secos, bairro para frescos na segunda semana | (640 + 180 + 93) + (180 × 1,18 + 15) = 913 + 227,40 | R$ 1.140,40 |
Na opção C você compra no atacarejo os secos de duas semanas (2 × R$ 320,00 = R$ 640,00) e os frescos da primeira (R$ 180,00), e paga uma ida só. Na segunda semana compra só os frescos no bairro: 180 × 1,18 = R$ 212,40, mais R$ 15,00 da sua hora.
O resultado: ir toda semana ao atacarejo ganha do mercado do bairro, mas o plano misto ganha dos dois. A opção C economiza R$ 1.186,00 − R$ 1.140,40 = R$ 45,60 a cada duas semanas, cerca de R$ 91,00 por mês, sem trocar nenhum ingrediente.
Os seus números vão ser outros. Se o Uber custa R$ 25,00 ou a compra é de R$ 1.200,00, o atacarejo semanal pode ganhar. Se a compra é pequena, o bairro pode ganhar. Por isso a conta tem que ser feita com a sua ida.
Como baixar o custo por ida
A ida custa quase o mesmo se você compra R$ 300,00 ou R$ 900,00. Tudo o que faz cada ida carregar mais compra baixa o acréscimo:
- Junte os secos. Arroz, feijão, óleo, açúcar, embalagens e etiquetas duram. Compre a cada duas ou quatro semanas, se tiver espaço e dinheiro em caixa para isso. Antes de estocar, veja quando comprar em grande quantidade compensa e quando não.
- Deixe os frescos perto de casa. Frango, verdura e ovos estragam. Comprar longe e em quantidade soma desperdício ao custo da ida.
- Planeje antes de sair. Uma segunda ida por algo que você esqueceu custa o mesmo que uma completa. Uma lista feita a partir do que você vai produzir evita isso.
- Peça entrega. Se um fornecedor cobra R$ 20,00 para entregar e a sua ida custa R$ 93,00, a entrega sai mais barata mesmo com o produto um pouco mais caro. Faça a mesma conta do exemplo com o preço e a taxa dele.
Na entressafra, quando o preço de algum fresco dispara, a conta pode mudar, e ir até a Ceasa pode voltar a compensar por alguns meses. No guia sobre preços de safra e entressafra você vê como se planejar para esses períodos.
Anote a ida junto com a compra
Para fazer essa conta você precisa saber quanto gastou de transporte e quanto tempo levou. O mais simples é anotar no mesmo lugar onde registra as compras: data, lugar, total, transporte e horas. Com um mês de registros de compras que servem de verdade, você compara lugares com os seus números, e não com a impressão de que "lá é mais barato".
O mesmo raciocínio vale ao contrário, quando é você quem leva o produto ao cliente. O tempo e o transporte de cada entrega também se dividem entre o que você vende, e o guia sobre o custo real da entrega mostra a conta completa. Para ver onde a ida às compras entra em toda a rotina, leia como comprar ingredientes para um negócio de comida.
Faça na calculadora
Na calculadora de custos, divida o custo da ida pelas fornadas que você faz com aquela compra e some em "Gás, luz e outros por fornada": uma ida de R$ 93,00 que abastece 5 fornadas dá R$ 18,60 por fornada. Assim o custo por unidade e o preço para a sua margem já incluem o Uber e as suas horas de compra.
Perguntas frequentes
Quanto vale a minha hora se o negócio é só meu?
Use o mesmo valor por hora que você usa para custear seu trabalho na cozinha. Se ainda não tem um, comece pelo que pagariam por um trabalho parecido na sua cidade e ajuste depois.
A ida às compras entra no custo do produto ou nas despesas gerais?
As duas formas funcionam, desde que você seja constante. O mais simples é somar todas as idas do mês e dividir pelas unidades produzidas no mês.
Vale a pena pagar entrega do fornecedor?
Compare a taxa de entrega com o custo da sua ida, contando transporte e horas. Se a entrega sai mais barata que a sua viagem e o preço do produto é parecido, compensa.
De quanto em quanto tempo refaço essa conta?
Quando algo grande mudar: o preço do transporte, o lugar onde você compra, a frequência ou o tamanho da compra. Se nada mudar, uma revisão a cada poucos meses basta.