Nesta seção
- Margem de contribuição: o que é e como calcularO que é margem de contribuição, como calcular em reais e em percentual, e por que ela decide preço, desconto e canal de venda. Com exemplo de pão de mel.→
- Ponto de equilíbrio para negócio de comidaComo calcular quantas unidades você precisa vender por mês para cobrir os custos fixos e o seu salário, com um produto ou vários. Exemplo em reais.→
- Contribuição por hora de cozinha: qual produto rende maisComo calcular quanto cada produto deixa por hora de cozinha e ordenar o que você faz com esse número. Exemplo com molho, bolo de pote, brigadeiro e marmita.→
- Quais produtos manter, impulsionar ou tirarUm método simples para decidir quais produtos do seu negócio de comida manter, impulsionar, ajustar ou tirar, com dois números por produto e exemplo em reais.→
- Lucro bruto e lucro líquido: qual é a diferençaO que é lucro bruto, o que é lucro líquido, o que entra em cada um e como calcular os dois com os números de um mês do seu negócio de comida. Com exemplo.→
- Por que você tem lucro e não tem dinheiro no caixaOs motivos que fazem um negócio de comida ter lucro e o caixa vazio: vendas a prazo, repasses, estoque, parcelas e retiradas. Com exemplo em reais.→
- Qual margem de lucro é boa para um negócio de comidaPor que as margens de referência que circulam confundem e como calcular a margem que o seu negócio de comida precisa, com suas despesas e seu pró-labore.→
- Sinais de que um produto está dando prejuízoOs sinais de que um produto do seu negócio de comida está dando prejuízo e as quatro contas para confirmar. Com exemplo de bolo de pote, passo a passo.→
- Como definir o seu pró-labore num negócio de comidaComo colocar o seu pró-labore no custo dos produtos, quanto tirar por mês e quando, e o que fazer se o negócio ainda não paga você. Com exemplo em reais.→
Um produto é lucrativo quando passa em quatro testes: cada unidade deixa dinheiro depois dos custos variáveis, esse dinheiro paga a sua hora de cozinha, o resultado se mantém no canal onde você vende e, somado aos outros produtos, cobre os custos fixos e o seu salário no fim do mês. Se falha no primeiro, você perde dinheiro a cada venda. Se passa no primeiro e falha nos outros, você está trabalhando barato sem perceber. Abaixo estão o método e um exemplo completo com bolo de pote e marmita.
Neste guia
Esta página é o resumo. Cada parte tem o seu guia:
- Margem de contribuição explicada com exemplos: o que cada unidade deixa.
- Contribuição por hora de cozinha: a conta que ordena os seus produtos.
- Ponto de equilíbrio: quantas unidades você precisa vender por mês.
- Quais produtos manter, impulsionar ou tirar.
- Lucro bruto e lucro líquido, com um mês de exemplo.
- Por que você pode ter lucro e mesmo assim ficar sem dinheiro.
- Qual margem é boa para um negócio de comida.
- Sinais de que um produto dá prejuízo.
- Como tirar o seu salário do negócio.
Os cinco números de que você precisa
- O que sobra do preço. O preço que o cliente paga, menos o imposto se ele estiver incluído, menos a comissão do canal ou a taxa da maquininha.
- O custo variável por unidade. O que você gasta só quando produz: ingredientes, embalagem e etiqueta, gás da fornada e o desperdício dividido pelas unidades que você de fato vende. Se ainda não tem esse número, comece por como calcular o custo de um produto de comida.
- As horas de cozinha por fornada. Todas as horas com as mãos ocupadas: preparar, cozinhar, embalar e limpar. O tempo de forno em que você pode fazer outra coisa não conta. O tempo em pé mexendo a panela, sim.
- Os seus custos fixos do mês. O que você paga vendendo ou não: taxa da feira, luz e gás extras, celular, reposição de utensílios. Se você é MEI, a contribuição mensal também entra aqui (confira o valor atual no Portal do Empreendedor, gov.br). Se tiver dúvida sobre o que é fixo, veja custos fixos e variáveis.
- Quanto você quer ganhar por hora. Um número seu, decidido antes de olhar os resultados. Sem ele não há com o que comparar.
Uma observação sobre o seu tempo. O custo carregado soma ingredientes, embalagem, mão de obra, custos gerais e desperdício, e é o que você usa para definir preço. Nestes testes deixamos o seu próprio tempo à parte, porque é justamente o que queremos medir: quanto cada hora paga você. Se você paga uma ajudante só quando ela produz, esse pagamento entra no custo variável.
Teste 1: cada unidade deixa dinheiro?
Contribuição por unidade = o que sobra do preço − custo variável por unidade.
É o que cada venda soma para pagar os fixos, o seu tempo e o seu lucro. Dividida pelo que sobra do preço, é a margem de contribuição em percentual. Se der negativa ou perto de zero, o produto perde dinheiro em cada venda, e vender mais piora a situação. Se der positiva, o produto segue para o próximo teste. Passar neste é o mínimo; ainda não diz que o produto vale a pena.
Teste 2: paga a sua hora de cozinha?
Contribuição por hora de cozinha = contribuição por unidade × unidades vendáveis da fornada ÷ horas da fornada.
Compare o resultado com quanto você quer ganhar por hora. Um produto com boa margem pode pagar pouco por hora se der muito trabalho, e um com margem modesta pode pagar muito bem se sair rápido. É o teste que mais decide o que fazer com a sua semana, porque as suas horas são o que menos dá para esticar.
Teste 3: se mantém em cada canal?
O mesmo produto deixa valores diferentes conforme onde você vende. O app de delivery fica com uma comissão, a cafeteria paga preço de revenda, a feira cobra a barraca. Refaça os testes 1 e 2 com o preço e a comissão de cada canal. Um produto pode dar lucro no seu WhatsApp e prejuízo em outro lugar; veja em detalhe em lucro por canal e, para iFood e Rappi, em vender por apps de delivery.
Teste 4: cobre os fixos e o seu salário no fim do mês?
Some a contribuição de tudo o que você vendeu no mês. Tire os custos fixos. O que sobra é o que o negócio paga a você. Divida pelo total de horas que você trabalhou, incluindo compras, entregas e mensagens, e compare com o seu número do teste 2.
Este teste mostra se os produtos que passaram nos outros três vendem o suficiente para sustentar você.
Exemplo: bolo de pote e marmita nos quatro testes
Você vende bolo de pote e marmita feitos em casa, pelo WhatsApp e numa feira aos domingos. Quer ganhar R$ 25,00 por hora. Os preços do exemplo não têm imposto incluído.
Os custos
Bolo de pote. A fornada rende 21 potes, mas 1 sempre sai feio ou sobra, então você vende 20.
- Ingredientes da fornada (massa, leite condensado, chocolate, creme de leite): R$ 52,00
- Gás da fornada: R$ 6,00
- Pote, colher e etiqueta: R$ 1,50 por pote
- Custo variável por pote: (52,00 + 6,00) ÷ 20 + 1,50 = 2,90 + 1,50 = R$ 4,40
Marmita. O lote é de 25 marmitas, sob encomenda, então nada se perde.
- Ingredientes do lote (arroz, feijão, frango, legumes, salada): R$ 237,50
- Gás do lote: R$ 12,50
- Embalagem, tampa e etiqueta: R$ 1,00 por marmita
- Custo variável por marmita: (237,50 + 12,50) ÷ 25 + 1,00 = 10,00 + 1,00 = R$ 11,00
Teste 1
| Bolo de pote | Marmita | |
|---|---|---|
| Preço | R$ 10,00 | R$ 18,00 |
| Custo variável | R$ 4,40 | R$ 11,00 |
| Contribuição por unidade | R$ 5,60 | R$ 7,00 |
| Margem de contribuição | 56% | 38,9% |
Os dois passam. Olhando só esta tabela, a marmita parece a que mais rende: deixa R$ 1,40 a mais por venda.
Teste 2
A fornada de bolo de pote leva 2,5 horas com as mãos ocupadas: assar a massa, fazer o recheio, montar, fechar, etiquetar e limpar. O lote de marmitas leva 7,5 horas: arroz, feijão, frango, legumes, salada, porcionar, fechar e limpar.
- Bolo de pote: 5,60 × 20 = R$ 112,00 por fornada ÷ 2,5 horas = R$ 44,80 por hora
- Marmita: 7,00 × 25 = R$ 175,00 por lote ÷ 7,5 horas = R$ 23,33 por hora
A ordem se inverte. O bolo de pote, que deixa menos por unidade, paga quase o dobro por hora. A marmita não chega aos seus R$ 25,00.
Teste 3
O bolo de pote em três canais, com a mesma fornada de 20:
| Canal | Preço | Sobra | Contribuição por pote | Por hora |
|---|---|---|---|---|
| Direto (WhatsApp, Pix) | R$ 10,00 | R$ 10,00 | R$ 5,60 | R$ 44,80 |
| App de delivery (digamos 25% de comissão) | R$ 12,00 | R$ 9,00 | R$ 4,60 | R$ 36,80 |
| Revenda para cafeteria | R$ 7,00 | R$ 7,00 | R$ 2,60 | R$ 20,80 |
No app: 12,00 × 25% = R$ 3,00 de comissão, sobram R$ 9,00, menos R$ 4,40 de custo, R$ 4,60 por pote. Vezes 20 dá R$ 92,00, em 2,5 horas, R$ 36,80. Na cafeteria: 2,60 × 20 = 52,00, em 2,5 horas, R$ 20,80. O app se sustenta porque você subiu o preço lá. A revenda não paga a sua hora, mas economiza tempo de venda e entrega, e isso aparece no teste 4.
Teste 4
Num mês você faz 8 fornadas de bolo de pote e 8 lotes de marmita, tudo vendido direto.
- Contribuição do bolo de pote: 8 × 112,00 = R$ 896,00
- Contribuição da marmita: 8 × 175,00 = R$ 1.400,00
- Contribuição total: R$ 2.296,00
- Custos fixos: R$ 600,00 (gás e luz fora das fornadas R$ 150, internet e celular R$ 100, taxa da feira R$ 250, reposição de utensílios R$ 100)
- Sobra para você: 2.296,00 − 600,00 = R$ 1.696,00
Horas no mês: 8 × 2,5 = 20 no bolo de pote, 8 × 7,5 = 60 na marmita e 30 em compras, feira, entregas e mensagens. Total: 110 horas.
A sua hora de verdade: 1.696,00 ÷ 110 = R$ 15,42. Para ganhar R$ 25,00 por hora nessas 110 horas, você precisa de 110 × 25 + 600 = R$ 3.350,00 de contribuição. Faltam 3.350 − 2.296 = R$ 1.054,00 por mês.
O que o exemplo mostra
O bolo de pote dá lucro no direto e no app. A marmita deixa um bom valor por venda, mas a R$ 18,00 não paga a sua hora. E o negócio inteiro, nesse volume, paga R$ 15,42 por hora. Três mudanças possíveis, cada uma com o seu número:
- Subir a marmita para R$ 20,00. Ela passa a deixar R$ 9,00 por unidade, R$ 225,00 por lote e R$ 30,00 por hora. Com as mesmas 200 marmitas no mês, são R$ 400,00 a mais.
- Trocar 1 lote de marmita por 3 fornadas de bolo de pote, se você conseguir vender mais 60 potes. Os dois levam 7,5 horas. Você deixa de ganhar R$ 175,00 e ganha 3 × 112 = R$ 336,00: R$ 161,00 a mais.
- Agrupar compras e entregas para passar de 30 para 22 horas fora da cozinha. A contribuição não muda, mas a sua hora sobe para 1.696 ÷ 102 = R$ 16,63.
Nenhuma fecha sozinha os R$ 1.054,00. Para o resto você precisa de mais volume ou de fixos menores, e o guia do ponto de equilíbrio mostra quanto volume.
O que fazer conforme o teste em que falha
- Falha no 1: o preço não cobre nem o que você gasta. Revise o custo, suba o preço com o método para definir preço ou pare de fazer. Os sinais de que um produto dá prejuízo ajudam a achar outros casos parecidos.
- Falha no 2: o produto deixa dinheiro, mas cobra tempo demais. Teste fornadas maiores para dividir o preparo e a limpeza, menos etapas, um preço mais alto ou fazer só sob encomenda.
- Falha no 3: cobre um preço diferente nesse canal ou saia dele. Não faça média entre canais, porque um bom pode esconder outro que dá prejuízo.
- Falha no 4: o problema está no mix e no volume. Veja quais produtos manter, impulsionar ou tirar e se os seus fixos fazem sentido para o que você vende. A diferença entre o que cada venda deixa e o que sobra no fim está em lucro bruto e lucro líquido.
Se um produto passa nos quatro e mesmo assim não sobra dinheiro na conta, olhe os prazos de recebimento, as compras grandes e o que você retira para as suas despesas. Isso está em por que você pode ter lucro e ficar sem dinheiro.
Os erros que fazem um produto parecer lucrativo
- Calcular só os ingredientes. Embalagem, gás e desperdício somam, e em produtos baratos podem pesar tanto quanto a receita.
- Dividir pelo que a receita promete. Se a fornada rende 21 potes e você vende 20, divida por 20.
- Contar só o tempo no fogão. Embalar e limpar também contam.
- Calcular sobre o preço com imposto ou antes da comissão. Esse dinheiro não é seu.
- Se comparar com um percentual que você leu por aí. Uma margem boa depende do seu tempo, dos seus fixos e do seu canal. Em qual margem é boa você vê como calcular a sua.
- Esquecer o seu salário. Se você retira o que sobra no fim do mês sem saber quanto cada hora rendeu, não sabe se o negócio paga você. Comece por como tirar o seu salário e por como calcular o custo do seu próprio trabalho.
Com que frequência refazer os testes
Refaça os testes 1 a 3 de um produto quando um ingrediente importante sobe ou desce, quando você muda a receita ou a embalagem e antes de entrar num canal novo. O teste 4, uma vez por mês, com o que você vendeu de verdade. Com dois ou três meses de números você vê qual produto sustenta o negócio.
Faça na calculadora
Na calculadora de custos você coloca a receita, as unidades da fornada, o desperdício, os minutos de trabalho, o preço e a comissão do canal, e ela mostra quanto você ganha por unidade e por hora de cozinha. A calculadora desconta o seu pagamento por hora como custo, então o valor por hora é o que sobra depois de pagar você; coloque 0 no pagamento por hora para ver a contribuição por hora completa, como neste exemplo.
Perguntas frequentes
Qual margem é boa para um produto de comida?
Não existe um número que sirva para todo mundo. No exemplo deste guia, o bolo de pote tem 56% de margem e paga R$ 44,80 por hora; a marmita tem 38,9% e paga R$ 23,33. Calcule a sua meta a partir dos seus custos fixos, das suas horas e do quanto você quer ganhar.
Preciso contar o meu tempo se trabalho sozinha ou sozinho?
Sim. Se você deixa as suas horas de fora, quase qualquer produto parece lucrativo. Decida quanto quer ganhar por hora e compare com o que cada produto deixa por hora de cozinha.
O imposto que entra no preço conta como lucro?
Não. Se o seu preço inclui imposto, essa parte não é sua. Faça os testes com o preço sem imposto e confira com um contador o que se aplica ao seu caso.
Se um produto não passa nos testes, paro de vender na hora?
Antes, teste um preço maior, um processo mais curto ou outro canal. Se mesmo assim ele não paga a sua hora e não traz clientes que compram outras coisas, o mais saudável costuma ser tirá-lo.
Com que frequência devo conferir se meus produtos dão lucro?
Sempre que um ingrediente importante muda de preço, quando você troca receita ou embalagem, antes de entrar num canal novo e uma vez por mês com o que você vendeu de verdade.